Especial

Não é amor

“Em meados de 2010, eu o conheci em uma festa. A conversa fluiu fácil e dali até começarmos a namorar foi um pulo. No primeiros meses ele participava de tudo. Aniversários, churrascos em família. Sociável, fazia amigos muito fácil. Eu o admirava, via nele uma inspiração. O carinho e a conexão entre a gente só aumentava.

Depois de alguns meses algumas coisas foram mudando, mas eu não percebi de imediato. Ele passou a reclamar mais dos meus amigos e pessoas próximas. Na visão dele, alguns dos meus amigos saiam demais e isso podia ser má influência para mim.  Sem perceber, meu círculo de amigos e companhias do dia a dia diminuíram. “Estão todos ocupados trabalhando ou levando suas vidas”, eu pensava.

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Quando saia, via-me cercada pelos amigos deles e pelos hobbies dele. Mas tudo bem, ele continuava sendo inspirador para mim e eu, na época, o amava.  Em alguns momentos aquela ponta de desconforto surgia, principalmente quando eu estava no grupo dele e ele parecia não deixar espaço para minhas histórias e opiniões.

Mas eu o amava. “Tudo isso vai mudar com o tempo”, pensava. Quando o desconforto latejava e virava uma briga, ele me chamava de louca. Dizia que era tudo besteira e que eu era dramática demais. Sentia-me perdida, isolada.

Respirava e fingia esquecer a angústia. Em outros momentos, se insistisse no incômodo, ele rugia mais alto, demarcava espaço batendo nas coisas ao meu redor e me silenciava. Nunca me bateu.

Passei a questionar minhas decisões e tudo o que fazia. Passei a vigiar cada passo dado. Se conhecia alguém novo no trabalho ou em um café qualquer, logo sentia uma ansiedade. “E se ele me ver aqui com essa pessoa? Vai fazer uma cena. Vai gritar comigo…! Melhor encerrar o assunto e não dar espaço para intimidade.”

Foi aos poucos que me vi imersa no mundo dele. Fora daquele universo eu só tinha espaço para o trabalho. O sentimento de estagnação crescia. Engordei e já não fazia as minhas maratonas de final de semana – aquelas que tanto amava. Ele dizia que estava tudo bem, que eu não precisava dessas bobeiras e que ele estava cuidando de tudo. Eu devia parar de reclamar tanto e ser menos ingrata com ele.

Eu já não questionava tanto, não brigava tanto. Sentia-me diminuída, sem fôlego ou motivação.”

O relato que você leu acima não é meu.

Ele foi inspirado em histórias reais de mulheres que viveram relacionamentos abusivos. Nem sempre há violência física. Os sinais são sutis, nem sempre fáceis de identificar. Infelizmente, não são casos isolados e podem acontecer na sua terra natal ou em outro país. A informação é a principal forma de prevenir, mas o acolhimento também é importantíssimo.

A cada ano, segundo levantamento da Organização White Ribbon, 14 mulheres são mortas por seus parceiros ou ex-parceiros na Nova Zelândia. A estatística é baseada apenas nos casos reportados à polícia, o que deixa espaço para tantos outros que são silenciados. O contexto neozelandês não é e não pode ser comparado com o brasileiro, que fique claro. No entanto, o feminicídio existe e a legislação para combater esse crime vem sendo reformulada ao longo dos últimos anos.

Viver em um novo país pode fazer com que você fique vulnerável ou isolada. Mas saiba que você pode procurar ajuda ou ajudar alguém em situação de abuso. Além de organizações neozelandesas, sendo estrangeira, você pode busca apoio e informação na organização para Mulheres Refugiadas.

Onde buscar ajuda?
(Informações em inglês)
White Ribbon
Are you ok?
Womens Refugee

Dicas da polícia neozelandesa
http://www.police.govt.nz/advice/family-violence/help  

Ligações de emergência na Nova Zelândia: 111
Será que você está em um relacionamento saudável?

Leia também:
A mulher e a igualdade de gênero na Nova Zelândia

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Comunicóloga freelancer e expatriada. Curiosa por novas histórias e idealizadora do Além do Mar. Escreve com o propósito de solucionar problemas de uma maneira mais leve - ou para organizar o caos mental vez ou outra. =)

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