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Especial

Uma carioca no “interior” da Nova Zelândia

“Meu primeiro choque mesmo foi um país inteiro funcionar até às 17h”, afirma Fernanda Fontenelle. Acostumada com o ritmo agitado do Rio de Janeiro, a brasileira se surpreendeu com o clima interiorano de Wellington, capital da Nova Zelândia. “Moro na Nova Zelândia há seis anos. Cheguei em março de 2012 com meu marido, Rafael Santos. Viemos como turistas e a intenção era viajar o mundo, mas ficamos por aqui mesmo. Morei em Wellington por três meses até que meu marido, da área de programação, arrumou emprego (e visto de trabalho) em Tauranga. Eu que vim do Rio de Janeiro e achava Wellington pequena. Ir pra Tauranga foi uma experiência incrível”, relembra.

População
Wellington:
398 mil habitantes
Tauranga: cerca de 109 mil habitantes
Rio de Janeiro: mais 6 milhões de habitantes, apenas na capital do estado.

Saiba mais:
Conheça a convidativa Wellington

A pequena cidade de Tauranga, localizada na Ilha Norte, é ponto de parada de cruzeiros marítimos. Durante as épocas mais quentes atrai turistas que querem conhecer as belezas do Monte Maunganui, além de ser ideal para mergulhos e observação de golfinhos e baleias. “Eu estava relutante em me mudar para um lugar pequeno, mas acabou que fui muito feliz lá”, observa. Foi na cidade com clima de vila de pescador que a designer gráfica e ilustradora se casou. No ano seguinte, o casal festejava o nascimento do primeiro filho, Lucas.

Gravidez no exterior

O acompanhamento da gravidez de Lucas foi todo por meio da rede pública. Fernanda tem hipertensão e foi monitorada por uma Médica Geral do país – conhecida como General Practionner. Mesmo com o apoio oferecido, a fase da gravidez foi desafiadora para a brasileira. “Não frequentei as aulas de pré-natal porque me disseram que era besteira. Eu e meu marido ficamos isolados da comunidade por conta disso. Quando o Lucas nasceu, minha família veio para ajudar. Depois de quase três meses, éramos só eu e meu marido nos equilibrando na corda bamba”, lembra. 

As aulas de pré-natal preparam a família com informações e cuidados gerais do bebê, são gratuitas e oferecidas em centros comunitários e organizações espalhadas no país.

Com algumas exceções, na Nova Zelândia, estrangeiros que descobrem a gravidez no país e possuem visto de trabalho de até dois anos têm acesso ao sistema público hospitalar (mais informações no final do post).

Durante os meses de gestação você terá os cuidados de uma doula – midwife. Tanto a doula quanto a médica geral podem ficar com você de quatro a seis semanas após o parto. A licença maternidade no país é de 22 semanas, podendo variar para menos dias dependendo da sua carga horária de trabalho. Período semelhante é aplicado para aqueles que desejam adotar uma criança.

Centro de Auckland, Nova Zelândia.

Tempos cinzentos

De lá para cá, a vida deu uma nova reviravolta. Em 2014, a empresa onde o Rafael trabalhava fechou as portas. Um novo emprego surgiu em Auckland e eles decidiram se mudar de Tauranga. “Fomos e aquele foi o pior ano da minha vida”, declara.

A adaptação foi complicada. Assim como em outras grandes cidades pelo mundo, Auckland – o centro de Auckland, para ser mais específica – carrega a mistura cultural dos estrangeiros que visitam a região. O espírito cosmopolita e o estilo de vida voltado para os negócios fica em evidência. Enquanto que os trejeitos e reciprocidade do neozelandês ficam em segundo plano. Algo que não acontece com tanta intensidade em outras cidades do país.

Não é porque você veio para um novo país que necessariamente vai ser feliz nele. A felicidade e sensação de bem estar dependem de inúmeros fatores – amizades, facilidade com idioma, finanças, moradia, segurança, entre outros. Um ambiente que proporcione atividades diferentes do seu estilo de vida, ou um local que a deixe isolada podem ser o gatilho para insatisfação. (Além do Mar)

Para quem já estava se sentindo acolhida pelo modo kiwi de ser, ir para um centro urbano pode ter resultados negativos. Foi durante a sua estadia em Auckland que Fernanda descobriu que tinha Lúpus – uma doença crônica que faz com que o sistema imunológico produza anticorpos em excesso sem razão aparente. Em uma das crises do distúrbio, Fernanda recebeu a notícia de uma nova gravidez.

O risco de complicações era grande. Fernanda optou por seguir com a gravidez. “Minha médica nefro disse que eu deveria fazer biópsia renal e eu não queria por causa da Sofia. Mas eles garantiram que era seguro. Não era. Tive hemorragia interna e acabei desmaiando. Fui levada para a sala de cirurgia e fui ressuscitada. Minha filha não aguentou a pressão do sangue na barriga e faleceu. Eu tive que fazer uma grande cirurgia e acabei ficando no total duas semanas no CTI e um mês internada”, relembra.

Ela precisou fazer fisioterapia para reaprender algumas das funções motoras como anda e comer. Também desenvolveu estresse pós-traumático. “Ofereceram ajuda da assistente social para a perda da minha filha, mas nem isso consegui raciocinar na época. Depois, voltando pra casa, pedi ajuda no hospital e consegui uma psicóloga. Ela me ajudou muito.”

Em 2015 o marido de Fernanda recebeu uma nova proposta de trabalho para Wellington. Atualmente moram no subúrbio de Korokoro.

Dica para quem pretende vir:

Venha de coração aberto! Aberto pra conhecer novas culturas. No primeiro momento, evite muito contato com brasileiro. Faça amizade com culturas diferentes. Venha querendo acrescentar e não só desfrutar. Mesmo com toda minha questão de saúde, trabalhei como voluntária e faço parte de algumas comunidades de apoio a mães. Nova Zelândia é maravilhosa e é um grande privilégio morar aqui. (Fernanda Fontenelle)

Onde buscar apoio em situações semelhantes (em inglês):

Como lidar com o luto

Gravidez e escolha de médicos e doulas

Aulas de pré-natal em Auckand

Aulas de pré-natal em Wellington

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Comunicóloga freelancer e expatriada. Curiosa por novas histórias e idealizadora do Além do Mar. Escreve com o propósito de solucionar problemas de uma maneira mais leve - ou para organizar o caos mental vez ou outra. =)

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